“ O que o profissional deve orientar ao responsável pela criança na primeira dentição “

Categoria: Prevenção das Doenças da Boca

Nós profissionais da área de saúde temos um papel fundamental na educação de nossos pacientes para a manutenção de sua saúde geral e bucal. A nossa maior missão é promover saúde e não somente fazer o tratamento curativo.
Ferreira & Guedes, em 1997 relataram que a educação dos pacientes é um dos principais componentes de filosofia preventiva; donde se poderia dizer que prevenção é basicamente educação, levando os indivíduos a adotarem práticas indispensáveis e a assumirem responsabilidade frente à manutenção de sua saúde bucal e a de seus familiares.
Ao longo de 27 anos de profissão dedicados à prevenção, aprendi que o mais difícil é motivar o paciente a modificar hábitos de higiene bucal e de alimentação. A motivação tem prazo de validade e ela deve ser constante.
O que posso dizer é que todo esse trabalho é muito gratificante, pois além de conseguir manter a saúde dos pacientes, você os fideliza e se torna o profissional de confiança de toda a sua família.
Os cuidados odontológicos idealmente deveriam preceder a chegada do bebê, ou seja, enquanto a mãe ainda estivesse grávida ou anteriormente à erupção dentária, visto que a formação dos dentes inicia-se na sexta semana de vida intrauterina ( TEN CATE, 1988 ). A consulta com o dentista deveria ser obrigatória nesse período e ser incluído de forma rotineira no pré-natal, pois além da gestante começar a receber orientações importantes sobre como manter a sua saúde bucal e a de seu bebê, ainda podemos evitar complicações durante a gestação devido, por exemplo a uma gengivite. Vários estudos já relacionam o nascimento de bebês prematuros e/ou baixo peso com as doenças da gengiva.
O primeiro passo é a conscientização dos pais a respeito do seu papel na prevenção e na manutenção da saúde bucal do bebê. Vamos as principais orientações que nós profissionais de saúde devemos passar para os nossos pacientes:
1) Explicar a responsabilidade dos pais pela higiene bucal, mostrando como e quando realizá-la;
2) A importância do aleitamento materno;
3) A influência dos hábitos alimentares;
4) A importância de uma alimentação balanceada, rica em nutrientes e com redução de sacarose para as gestantes e bebês;
5) Esclarecimento sobre o uso de mamadeiras e chupetas;
6) Esclarecimento sobre as doenças da boca.

A higiene bucal do bebê deve ser iniciada o mais cedo possível, de preferência antes da erupção dentária. É realizada com gaze embebida (fig.1 ) em água filtrada, limpando delicadamente o fundo de sulco, a língua e os roletes gengivais, ao menos duas vezes ao dia, principalmente antes de dormir. A mãe deve ser informada que a introdução dos hábitos de higiene antes da erupção dos primeiros dentes tem a função de condicionar a criança com a higienização e familiarizá-la com o toque em sua cavidade oral, além de auxiliar na remoção de restos alimentares e bactérias, tornando o meio bucal mais adequado para a chegada dos primeiros dentes. (WANDERLEY et al., 1998). Logo que os primeiros dentes chegarem os pais já podem começar a utilizar o fio dental (fig.2) e a dedeira (fig.3 e 4). Com a erupção de mais dentes deve-se mudar da dedeira para uma escova de dentes. Existem modelos específicos para cada idade (fig.5). A higienização deve ser realizada pelos pais ou cuidadores após cada mamada ou refeição.
Sobre a pasta de dente, após vários anos de pesquisas e análise das estatísticas, temos hoje uma nova postura quanto ao uso dos dentifrícios com flúor, baseada em evidências científicas. Atualmente, a ABO (Associação Brasileira de Odontologia), assim como o Ministério da Saúde, recomenda o uso de pasta de dente convencional com flúor a partir da erupção dos primeiros molares decíduos (em torno de 14 meses), na quantidade equivalente a um grão de arroz cru . A pasta ideal para crianças deve conter 1.000 a 1.100 ppm de fluoreto de sódio (flúor).
Fala-se muito sobre a importância do aleitamento materno para a saúde geral do bebê e do fator psicológico, pois cria-se um vínculo emocional importante entre o bebê e a mãe, mas pouco se comenta dos benefícios do aleitamento materno para a sua saúde bucal. O aspecto funcional é o mais importante para a Odontologia, pois com o movimento de ordenha (abaixamento, protrusão, retrusão e levantamento da mandíbula) realizado durante a amamentação ocorre desenvolvimento e tonificação dos músculos mastigatórios, ligamentos articulares e ATM, prevenindo muito precocemente o risco de DTM ( Distúrbio temporomandibular ), dificuldade de fonação, hipofunção dos músculos, respiração bucal, mal oclusões, deglutição atípica, patologias do sistema respiratório e hábitos deletérios (QUELUZ & GIMENEZ, 1999). Já com o uso da mamadeira, ocorre o trabalho de apenas dois grupos musculares: o orbicular dos lábios e bucinador, ao invés de trabalho sincronizado de todos os músculos mastigatórios (pterigóideo, masseter, temporal, supra e infra-hióideo), ocorrendo menor estímulo ao desenvolvimento e promovendo pressões excessivas sobre a maxila, o que pode levar a atresia (FALTIN JR, 1994; PASTOR & MONTANA, 1994). Importante sempre orientar a mãe a dar preferência e insistir no aleitamento materno, evitando o uso de mamadeiras por todas as questões acimas citadas. Um fator importante que deve ser alertado às mães, caso seja realizado aleitamento artificial, é o de que o furo do bico da mamadeira não deve ser aumentado para “facilitar” a mamada, pois aumentando o volume de leite é diminuído o exercício muscular, e isso contribui para a instalação da deglutição atípica, porque para que a criança não se afogue, a língua trabalha como uma válvula, não realizando os movimentos ondulatórios normais. Outra dica importante é a preferência pelos bicos e chupetas ortodônticos, caso forem realmente necessários.
A questão alimentar é sempre um assunto importante a ser abordado durante as orientações, visto que ela tem uma influência direta na saúde bucal. Além das cáries, temos hoje uma outra ameaça que é a erosão ácida. A erosão dental é definida como perda progressiva e irreversível de tecido dental duro por processo químico que não envolve ação bacteriana, causada por ácidos intrínsecos (origem gástrica) ou extrínsecos (dieta), mas muito mais associada à dieta moderna. A inclusão de bebidas ácidas na alimentação infantil como refrigerantes, bebidas à base de soja, suco de frutas cítricas dentre outros, tem contribuído para um aumento da erosão ácida entre as crianças. A principal recomendação que devemos dar aos pais é evitar os beliscos ao longo do dia, evitar dar balas e chicletes para as crianças, diminuir a ingestão de achocolatados e biscoitos recheados e diminuir a ingestão de ácidos. Em geral a escovação imediata é ideal para prevenção de cáries, mas deve-se orientar os pais que após ingerir bebidas e alimentos ácidos, é prudente aguardar uma hora antes de escovar, pois o esmalte torna-se macio e esse é o tempo que a saliva leva para elevar o pH da boca, que se encontra muito ácido.
A orientação de uma alimentação balanceada, rica em nutrientes, explicando a importância dela para uma boa saúde bucal e geral, deve ser enfatizada.
Em relação ao uso de chupetas e do hábito de chupar o dedo, os pais devem ser alertados de que a falta do aleitamento materno pode contribuir para a instalação de hábitos de sucção não-nutritivos, como chupeta e dedo (PAUNIO et al., 1993). Isto ocorre porque no primeiro ano de vida a boca é a região mais sensibilizada do corpo e a sucção é uma resposta natural da própria espécie, tendo como função básica a alimentação, visando à ingestão do leite materno. Uma vez respeitando a livre demanda, ou seja, a criança podendo mamar sempre que desejar, não se faz necessário o uso de outros artifícios substitutos para a maturação neurofisiológica do sistema estomatognático (COSTA et al., 1993; DEGANO, 1993). Além do mais, a criança pode utilizar a chupeta como “válvula de escape”, pois desde cedo aprendeu a descarregar as suas tensões fazendo o uso da mesma, criando o hábito. Deste modo, é importante explicar aos pais que, dependendo da frequência, duração, tipo e intensidade do hábito, ocorrerão alterações morfológicas e funcionais no desenvolvimento (QUELUZ & GIMENEZ, 1999) (Figura 6). Se a criança foi muito bem estimulada, ou seja, mamou no peito de maneira adequada, o início da retirada do hábito de sucção não-nutritiva ocorrerá por volta dos 6 a 7 meses, no momento em que se inicia a erupção dos primeiros dentinhos.
Outra ponto importante é explicar de forma simples a respeito das doenças da boca, principalmente sobre a cárie e a doença periodontal. A cárie é sacarose dependente e os pais devem ser orientados à respeito da alimentação da criança.
A doença periodontal se inicia normalmente na infância (gengivite). Por ser uma doença crônica, é assintomática. O sangramento gengival é o sinal mais característico e caso haja sangramento durante a higiene bucal, deve-se orientar os pais a buscar o dentista. Os pais devem ser orientados a levar seus filhos ao dentista (de preferência ao Odontopediatra) a partir dos 6 meses de vida. Fazendo isso de forma preventiva é possível fazer com que essa criança cresça saudável, livre de cáries e doença periodontal, afinal todos nós sabemos que a prevenção ainda é o melhor caminho.

FERREIRA, S.L.M.; GUEDES-PINTO, A.C. Educação do paciente em odontopediatria.
In: GUEDES-PINTO, A.C. Odontopediatria. 5.ed. São Paulo: Santos,
1995. p. 437-452.

TEN CATE, A.R. Desenvolvimento do dente e seus tecidos de suporte. In:_____ ___ Histologia bucal: desenvolvimento estrutura e função. 2.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988, p.47-65.

WANDERLEY, M.T.; NOSÉ, C.C.; CORRÊA, M.S.N. Educação e motivação na promoção da saúde bucal. In: CORRÊA, M.S.N. Odontopediatria na primeira infância. São Paulo: Santos, 1998. p.389-402.

QUELUZ, D.P.; GIMENEZ, C.M.M. A amamentação sob a ótica da odontologia. J Bras Ortodon Ortop Facial, Curitiba, v.4, n.24, p.498-506, abr./jun. 1999.

FALTIN JR, K. Ortopedia funcional dos maxilares. 1994, p.20-29.

PAUNIO, P.; RAUTAVA, P.; SILLANPAA, M. The fi nnish family competence study: the effect of living conditions on sucking habits in 3 years old children and dental oclusion. Acta Odontol Scand, Oslo, v.51, n.2, p.23-29, Feb. 1993.

COSTA, M.C.O.; FIGUEREIDO, E.M.; SILVA, S.B. Aleitamento materno: causas de desmame e justifi cativas para amamentar. J Pediatr, Rio de Janeiro, v.69, n.3, p.177-178, maio/jun. 1993.

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